Por: Júnior Borges.
Amante da vida, do sorriso, da felicidade, da disciplina, da paz, da competência. 44 anos de muito amor pela família, pelo trabalho, mas primordialmente por si! Mulher de grande personalidade e um sorriso avassalador. Sempre pragmática e exemplar, Silvia é muito além de um rosto bonito, é a essência brasileira que prospera em solo sul-mato-grossense.
Quem é Silvia Constantino? Silvia Constantino é mãe, advogada, jornalista e uma pessoa que gosta muito de viver. Nossa. Você tem diversos campos de atuação. Em todos esses campos de atuação, o que você mais prioriza?
Bom, eu trabalho em duas frentes, né? Eu sou, antes de ser advogada, jornalista. Então, jornalismo é a minha primeira formação. É o que eu amo fazer, é o que sei fazer. O direito, ele entra num segundo momento a título de busca de conhecimento. Porque chega um momento na nossa vida que a gente para ou continua. E eu sou uma pessoa que sempre busca mais. Eu nunca estou contente no lugar em que eu estou. Porque a gente sempre tem capacidade de chegar em determinados lugares. Basta você querer e colocar isso como meta. Então eu fui atrás do direito. Quando eu iniciei o direito eu queria ser delegada. Até o momento que eu fui numa delegacia e vi que eu não queria ser delegada. E realmente não era para mim. Então, hoje eu atuo no Direito, no Direito do Previdenciário. Minha sócia é uma colega de faculdade, nos formamos juntas, e inclusive a gente até falava que trabalharíamos juntas, e assim estamos, atuando numa área que ajuda as pessoas, que é o Direito do Previdenciário. Nunca achei que eu iria atuar nessa área, mas é uma área que eu sinto que a gente consegue ajudar de alguma forma, direta ou indiretamente, essas pessoas que vivem em questão de vulnerabilidade social, que são várias no nosso estado, no nosso país também. Então, hoje tenho essas duas paixões, a advocacia e o jornalismo.
Você tem toda uma aptidão, uma disciplina com o corpo, a parte física e tudo mais. Como é lidar todos os dias com uma rotina iniciada às 5 da manhã?
Às 4 da manhã. Porque eu acordo às 4, aí eu estudo uns 40 minutos antes de ir para o treino. Eu sou do dia. Então assim, das 4h às 17h, estou maravilhosa. Depois minha bateria vai caindo. Então sou do dia. Procuro sempre fazer tudo que tenho para fazer e render durante o dia. Acordo às 4, estudo até umas 4h40min., mais ou menos. Preparo meu café e vou para o primeiro treino do dia, que é sagrado. Treinar para mim é terapia. É a minha terapia. É o que me deixa feliz, é o que me prepara para o dia todo. Então eu tenho um treino às 5 da manhã, que é o crossfit. Inclusive você também é crossfiteiro. Aí saio desse treino, vou para casa, tomo banho e vou para o Tribunal. Fico no Tribunal até 13h30min., além de três vezes na semana fazer musculação às 14h, na sequencia venho para o escritório e fico até umas 18h. E, às vezes, tenho pilates também. Então, assim, tem dias que eu faço três treinos. O cross são todos os dias, sagrado, religioso. A musculação três vezes na semana e o pilates duas vezes na semana. Então, às sextas-feiras eu faço o cross, faço a musculação e faço o pilates. E eu amo fazer isso, né? Me faz bem, é bem para a saúde. Ah, mas você busca estética? A estética é consequência da minha disciplina para ter a minha longevidade. Então, treino para estar bem, ter um corpo bom, um shape legal é consequência do meu cuidado, do meu zelo no dia a dia, com a minha alimentação, com os meus treinos, com a minha água. Tomo três litros de água por dia. Então, assim, sou extremamente disciplinada nesse sentido. Eu gosto. Treinar para mim não é um sacrifício.
Como é ser tão jovem, tão bonita e passar essa sequência de cuidados para seus filhos?
Generosidade sua, tão jovem. Eu sou uma mulher de 44 anos. Antes de jovem, filha. Dizem que os 40 anos são os novos 20, né? Enfim. É muito engraçado isso porque, assim, nós somos referência dos nossos filhos. A gente é espelho para as pessoas. E lá em casa não é diferente. Então, os meninos, eles são atletas. Na verdade, o mais novo é atleta. Ele joga basquete profissional. O Arakan, fica migrando ali entre a corrida, Muay-Thai e o Jiu-Jitsu. Arakan é aventureiro. Se deixar, ele faz tudo! O Arakan é Sílvia! Percebo que assim, eles me têm como referência nesse sentido, né? Minha mãe se cuida, minha mãe treina e é muito engraçado, a hora que chega o meu horário de dormir, é um silêncio! Ninguém bate na porta, ninguém faz barulho porque a mãe está dormindo! Pai, a mãe está dormindo! A mãe já dormiu! Então é assim, há um respeito, há uma admiração e consequentemente isso acaba servindo de exemplo para eles também, né.
Assim como eu, você vem da periferia da cidade e alçar novos voos para nós sempre foi um pouco mais difícil. Como você vê a realidade social hoje da população dita pobre, dentro de Campo Grande?
É, como você bem disse, eu sou uma mulher preta periférica. É, preta periférica, vim da periferia. Não tenho vergonha de dizer isso, sou de Santa Luzia, até brinco às vezes, né? Que agora eu sou chique, agora sou do Carandá Bosque. Mas eu já fui do Santa Luzia, vim de lá. A minha motivação sempre fui eu mesma. Não estou aqui sendo narcisista. Mas eu nunca tive motivação para estudar, para fazer uma faculdade. Eu quis estudar, eu quis fazer faculdade, eu quis fazer uma segunda faculdade, eu quis fazer as outras especializações por mim mesma. Porque a gente tem que buscar isso, né? Porque ficar na zona de conforto é muito fácil, sair dela é difícil. Se você quer buscar algo melhor, você tem que se arriscar. E é difícil se arriscar, a gente tem medo do diferente, o diferente assusta. Eu sempre busquei isso desde muito nova. Lembro que com 14 anos comecei a trabalhar, fui Mirim. O meu primeiro trabalho foi como empacotadora no mercado, no antigo Soares, que nem existe mais. Comecei o meu trabalho como celetista ali, porque quis trabalhar. Falei: ”mãe, eu quero trabalhar”. Meu primeiro salário, paguei a fatura de luz, eu adorava fazer isso. Existia uma colaboração. Eu podia ajudar a minha família com o pouco que eu recebia e gostava de fazer isso. Isso, para mim, nunca foi uma obrigação.
Então, voltando à sua pergunta, essa questão da pobreza que você perguntou, da questão social A realidade social. Estamos á vivendo um momento esquisito com as novas gerações? Vejo essas novas gerações adormecidas. Sabe aquelas pessoas que não buscam mais e não querem sair daquele determinado lugar? Não buscam conhecimento e ficam ali na dependência? E diferente da gente que quis uma transformação, agora eu vejo lá no Tribunal os meninos e eles não querem fazer nada, eles não querem aprender, eles não buscam. São umas pessoas assim, lerdas de pensamento, não tem iniciativa, não são proativas. Então, eu acho que a gente vive num contexto social, primeiro, que o celular deixa a gente um pouco vulnerável no quesito intelectual, porque você não precisa mais pensar, o chat pensa por você. Essa facilidade, acho que tem um lado bom que vai fazer a gente dar um up, mas quem não está preparado, não vai conseguir ir um passo à frente. Porque não vai conseguir raciocinar, não vai conseguir pensar, vai ficar nessa dependência. Então, essa questão social, ela passa muito por essa busca e por essa transformação que não anda acontecendo.
Nem todo mundo sabe, mas você já foi Rainha de Bateria por muito tempo, tanto aqui quanto em Corumbá. A chama cultural existe aí dentro. O que o Carnaval representa, bem como, o que o Carnaval fez com Sílvia Constantino até o presente momento?
Eu fui Rainha de Bateria da Vila durante oito anos e fui Rainha de Bateria da Império do Morro. Eu sempre digo que o Carnaval me deu um marido e dois filhos, porque eu conheci meu marido no Carnaval. O Carlos era Secretário de Cultura quando eu fui candidata. Eu fui candidata à Rainha do Carnaval, mas eu não ganhei. Ele, na época, era Secretário de Cultura. E o meu número era 13. Quando ele viu meu número, ele já foi me xavecando, entendeu? Boa sorte, esse número vai te dar sorte, tarará, piriri. Perdi, ele foi falar comigo, pegou meu telefone, e saímos na outra semana e aconteceu. Há 23 anos estamos juntos. A minha história é uma história de carnaval que deu certo. Vivi esses sete anos intensamente dentro da Vila. Eu vivi uma vila Carvalho que tinha uma essência carnavalesca, que era um coração que pulsava. Hoje isso mudou, eu achei, acho que mudou muito lá dentro, sabe? As pessoas, o comprometimento com as pessoas, a forma como as coisas se dão. Mas quando eu vivi esses sete anos lá, eu vivi intensamente. E eu sou grata por isso. Faz parte da minha história. Ser Rainha de Bateria fez parte da minha construção enquanto mulher, enquanto pessoa, enquanto ser humano. Mesmo que tenhamos esse estigma de mulher preta no lado sexual, muito ligada a essa questão da bateria, eu sempre consegui mostrar para as pessoas que eu tinha muito mais a oferecer do que um corpo. E isso também é difícil de você construir dentro de uma comunidade. Mas a comunidade sempre me respeitou. E até hoje me respeitam, isso é legal, porque você deixa uma história. São boas lembranças, né? Mas passou. Passou. Infelizmente o nosso carnaval em Campo Grande cada dia mais, ele vem enfraquecendo. Penso que não existe um empenho do Governo, do Estado, para que essa Cultura seja valorizada. O nosso Carnaval foi muito bom na época lá do Zé, que eram as pessoas que gostavam mesmo da cultura. Hoje só acontece por conta das agremiações. E eu acho isso triste, porque é uma cultura universal, é o nosso patrimônio cultural, e ele precisava, sim, ser valorizado.
O que a Sílvia de hoje com 44 anos, diria para aquela adolescente de 14 que começou a trabalhar no supermercado? Nós vencemos.
Nesse mês de Consciência Negra, nós sabemos que o Brasil é um dos países mais complicados para um negro sobreviver. Nós somos o país que mais recebemos africanos e até o presente momento, a Lei Áurea não foi realmente assinada. Você, enquanto mulher preta, jornalista, advogada, qual conselho você daria para que todos os brasileiros e sul-mato-grossenses pudessem, de fato, entender que a supremacia branca foi extinta há muito tempo?
Essa questão racial envolve vários setores, econômico, social, político, e é um processo de desconstrução contínua. Não tem como a gente falar de enfrentamento ao racismo só em novembro, pontualmente, no dia 20 de novembro, que agora é feriado nacional, inclusive, grande conquista.
Tantas outras coisas mais importantes para serem pensadas, o feriado não vai fazer diferença. Mas, eu penso que, por mais que a gente ainda está a passos lentos de uma grande evolução, algumas coisas mudaram, poucas, mas mudaram. E essa mudança, tem que partir não só da Silvia Constantino, mulher preta, mas de uma pessoa também branca, de uma pessoa não negra. Essa discussão, ela tem que ser uma discussão de todos, porque senão não conseguiremos mudar essa história. E é importante ressaltar também que esse processo de desconstrução, precisa ser pensado num todo. Não só na camada da vulnerabilidade. Isso tem que vir de cima. Então, eu preciso pensar em meios de inserir as pessoas pretas, em cargos de ascensão. Nós temos as cotas que em Mato Grosso do Sul, no concurso público, tem órgãos que não aceitam. Não há uma obrigatoriedade legal, porém, é moral, mas tem alguns órgãos que, por exemplo, não aceitam as cotas em concursos públicos no nosso estado. Existe uma lei nacional, contudo, não há uma obrigatoriedade dos municípios, dos estados. Então, se a gente não conseguir fazer essa mudança, tanto interna quanto externa será difícil mudar essa realidade, por mais que a gente já tenha caminhado alguns passos. Entrar em determinados ambientes e ver que quem serve são pessoas pretas, isso não pode ser normalizado. Você não pode entrar num espaço e achar que está tudo bem você ser servido por pessoas pretas e quem está naquele ambiente são pessoas brancas. Isso não pode ser normalizado. Isso tem que ser uma discussão de todo mundo. Então, acho que enquanto as pessoas não entenderem que a questão racial é de todos, a gente não vai conseguir evoluir. Enquanto mulher preta é ainda pior, porque a gente tem associado a nossa imagem de uma mulher raivosa ou de uma mulher que serve apenas para fornicar, vamos dizer assim, que é apenas um corpo sensual e que a gente não tem nada a oferecer além da nossa sexualidade. E não é isso, nós também somos cabeças pensantes, nós também somos formadoras de opinião. Então, é um processo que demanda persistência e que a gente tem que persistir e insistir para que seja feita essa desconstrução e que a gente possa evoluir.
