Por: Felipe Augusto
Falar de Carnaval em Campo Grande é, inevitavelmente, falar de Silvana Valu, a mulher que transformou sonho em tradição e coragem em movimento cultural. Desde a infância, criada entre sambas, fantasias e a musicalidade herdada do pai, Silvana carregou a festa dentro de si como quem carrega um destino. Mas foi ao caminhar pela Esplanada Ferroviária, entre paralelepípedos cheios de história, que ela enxergou o que ninguém tinha visto: um berço pronto para renascer.

Com sensibilidade, visão e uma fé imensa na força da cultura popular, Silvana criou o Cordão Valu, que começou tímido, com poucos foliões, e se transformou em um dos maiores movimentos carnavalescos de Mato Grosso do Sul. Cada cortejo conduzido por ela devolveu às ruas a alegria, o pertencimento e a liberdade de celebrar. Silvana não apenas organizou um bloco; ela acordou a alma da cidade, devolveu ritmo ao que estava adormecido e mostrou que, quando a cultura pulsa no coração, ela encontra caminho até mesmo onde ninguém imaginava.
Hoje, sua história se mistura com a história de Campo Grande. E é impossível imaginar o Carnaval da cidade sem reconhecer a força, a entrega e a poesia que Silvana colocou em cada passo dessa jornada.

Felipe Augusto — Silvana, estamos em dezembro e a cidade já sente o clima de expectativa. Como estão os preparativos iniciais para o Carnaval 2026 e o Cordão Valu?
Silvana Valu — Os preparativos já começaram com a mesma energia de sempre, aquela mistura de ansiedade boa e responsabilidade enorme. A gente encerrou o ano celebrando os 19 anos do Cordão Valu e, ao mesmo tempo, já abrindo caminho para 2026. Estamos organizando a parte estrutural, avaliando parcerias, revendo a equipe e estudando as possibilidades para o cortejo. É um período de muita conversa, planejamento e, claro, aquele encantamento que sempre aparece quando percebemos que o Carnaval está chegando e que o Cordão vai novamente ocupar a cidade com alegria, música e história.
Felipe Augusto — Todo Carnaval exige desafios. Neste começo de organização, quais têm sido os maiores obstáculos e como você tem lidado com eles?
Silvana Valu — Os desafios, como sempre, começam pela parte estrutural e financeira. Fazer Carnaval na rua com qualidade, segurança e beleza é uma missão grande; envolve equipe, logística, artistas, produtores, som, cortejo, segurança, tudo isso funcionando em sintonia. Outro desafio é garantir que os apoios culturais cheguem no tempo certo, para que a gente possa trabalhar com tranquilidade. Mas venho lidando com tudo isso com a experiência de quem já enfrentou muitos Carnavais e com o apoio de uma rede de pessoas que acreditam no Cordão Valu. A força vem dessa história de 19 anos e do carinho que o público tem conosco; isso nos impulsiona a resolver cada obstáculo com firmeza e criatividade.
Felipe Augusto — Quando você pensa no cortejo de 2026 chegando, qual é o sentimento que mais te move neste momento e que mensagem você deixaria para quem já está na expectativa?
Silvana Valu — O sentimento é de gratidão e de alegria profunda. Cada Carnaval é um capítulo da nossa história, e imaginar o cortejo de 2026 descendo as ruas, preenchendo a Esplanada com cores, tambores e abraços, me emociona desde agora. A mensagem que eu deixo é: preparem o coração. O Cordão Valu é feito de gente, de afeto, de luta e de celebração. Estamos trabalhando para entregar mais um cortejo inesquecível, daqueles que fazem a cidade pulsar e que renovam a energia de quem caminha com a gente. Que todo mundo venha junto, porque o Valu só existe por causa desse encontro, e 2026 promete ser mais um Carnaval para guardar na memória.
Felipe Augusto — O Carnaval de rua tem crescido muito em Campo Grande. Como você enxerga essa evolução e qual o papel do Cordão Valu nesse fortalecimento para 2026?
Silvana Valu — É muito bonito ver como o Carnaval de rua em Campo Grande ganhou força e respeito nos últimos anos. A cidade entendeu que o Carnaval também é cultura, também é identidade e também é movimento social. O Cordão Valu tem muito orgulho de ter sido parte dessa virada desde 2006; a gente abriu caminho, segurou a bandeira e mostrou que era possível fazer um Carnaval democrático, potente e com a cara de Campo Grande.
Para 2026, o nosso papel continua sendo esse: fortalecer a cena, incentivar outros blocos, dialogar com o poder público e, principalmente, entregar um Carnaval de qualidade para a população. O Cordão Valu segue como referência, não só pela tradição, mas pela responsabilidade de manter viva a energia que ajudou a construir. Queremos que a cidade inteira se reconheça nesse movimento e que cada ano seja mais grandioso que o anterior.
E é sempre importante lembrar que o Carnaval de rua de Campo Grande, hoje, é patrimônio imaterial estadual.
Felipe Augusto — Os ensaios, bastidores e a construção coletiva fazem parte da magia do bloco. O que você mais espera vivenciar novamente durante esse processo até o grande dia do cortejo?
Silvana Valu — O que mais me emociona é reencontrar as pessoas. A construção coletiva é a alma do Cordão Valu. É naquele momento que todo mundo chega com sua força, sua criatividade, seu carinho, e o bloco vai ganhando corpo, cor e identidade.
Espero vivenciar novamente essa mistura linda de cansaço bom, riso solto, corre-corre e abraços. É nos bastidores que o Valu se revela por inteiro: na solidariedade, na troca, na disposição de fazer acontecer. E é isso que me move: ver que, a cada ano, o Cordão renasce das mãos do próprio povo e que, juntos, vamos tecendo o caminho até o grande dia do cortejo.

E, ao encerrar esta matéria, é impossível não transformar estas últimas linhas em homenagem. Porque Silvana Valu não construiu apenas um bloco; ela construiu encontros, devolveu cor às ruas, pertencimento aos passos e verdade às tradições.
O colunista Felipe Augusto, através da Central de Notícias 67, registra aqui sua profunda gratidão e reverência a você, Silvana.
A sua força não apenas reinventou o Carnaval de Campo Grande; você reacendeu a alma da cidade, mostrando que, quando a cultura pulsa forte dentro de alguém, ela encontra caminho, mesmo onde ninguém imaginava mais.
Você provou que tradição não é memória guardada: é presença viva, é passo firme, é coragem de fazer o novo existir sem perder o que nos trouxe até aqui.
E agora, enquanto dezembro avança e o ano se despede, permanece a certeza que nos aquece: estamos todos aguardando ansiosamente o Cortejo do Cordão Valu 2026, que mais uma vez carregará sua força, sua sensibilidade e a sua história pelas ruas que você transformou em poesia viva.
Porque Silvana Valu não apenas fez Carnaval.
Ela fez cidade.
Ela fez gente.
Ela fez pertencimento.
E isso, ninguém apaga.
