Já parou para observar que o mundo está mais apagado?

Mato Grosso do sul

Por: Andy Duarte

Quando eu era pequena, havia uma brincadeira curiosa: quem avistasse um carro azul passando pela rua batia de leve na testa da pessoa ao lado e apontava o carro. Se o veículo não fosse azul, o “tapa” podia ser devolvido em dobro. Era um jogo simples, quase ingênuo, mas que exigia atenção a algo raro.

Diz a lenda que essa brincadeira surgiu nos Estados Unidos, no século XX, quando os carros eram fabricados quase exclusivamente na cor preta, mais barata e fácil de produzir. Um erro na mistura de tinta teria resultado em alguns veículos azuis, o que desagradou a Henry Ford, dono da fábrica. A cena teria virado chacota entre os funcionários da fábrica. Verdade ou não, a brincadeira atravessou gerações. Hoje, meus sobrinhos até tentam reproduzi-la, mas com pouco sucesso: carros azuis se tornaram exceção em meio a tantos de cor branca, preta e cinza.

Essa paleta pálida não ficou restrita às ruas. Ela invadiu eletrodomésticos, casas, escritórios e até nossos guarda-roupas. Houve um tempo em que as casas tinham curvas, detalhes e cores. Geladeiras e fogões faziam parte da decoração. As roupas eram cheias de camadas, texturas e contrastes. Mesmo os roqueiros, vestidos de preto, usavam acessórios, cabelos ousados e elementos que comunicavam identidade.

Basta observar a natureza para perceber que ela é tudo, menos minimalista. É feita de cores, curvas, volumes e texturas. Em contraste, o mundo que construímos hoje parece cada vez mais reto, cinza e estéril: casas quadradas, ambientes frios, eletrodomésticos pretos, carros neutros, roupas em tons nude. Uma estética organizada, porém, marcada por certa apatia.

Segundo Eva Heller, autora do livro A Psicologia das Cores, as cores influenciam o humor, moldam percepções inconscientes e afetam comportamentos, relações e decisões de consumo. Estudos coordenados por Peter Whorwell apontam que o cinza está fortemente associado a sentimentos de tristeza e depressão. Não por acaso, vivemos uma crescente onda de desânimo, isolamento e esgotamento emocional.

É claro que os smartphones têm grande parcela de responsabilidade nesse cenário, mas o ambiente que nos cerca também comunica. Ele nos conduz, silenciosamente, a estados de monotonia, frieza e cansaço. Vamos nos tornando mais mecânicos, menos sensíveis, menos humanos.

Tudo ao seu redor reflete dentro de você, ainda que pareça irrelevante. Talvez a pergunta não seja se isso é bobagem, mas porque seguimos tendências sem refletir se elas fazem sentido. A quem interessa um mundo mais apático? Um indivíduo cansado não pensa. Sem pensar, não sonha. E sem sonhar, não vive, apenas sobrevive.

Agora que terminou de ler, feche o celular, beba água e abra um livro.

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