Por: Cassiano Panizza.
Há nomes que aparecem em todo catálogo, em todo anúncio, em todo pulso. E há nomes que ficam nos bastidores, mas mudam tudo. Gérald Genta é esse segundo tipo: discreto, quase anônimo para o grande público, mas simplesmente indispensável para entender o universo dos relógios modernos.

O começo: um ourives em Genebra.
Gérald Genta nasceu em 1931, em Genebra, berço da alta relojoaria. Mas antes de pensar em ponteiros, ele pensava em metal e forma: formou-se como ourives, criando joias e trabalhando com detalhes minúsculos, onde qualquer milímetro faz diferença.
Essa origem é fundamental para entender seu estilo: Genta nunca viu o relógio só como um instrumento para marcar horas. Para ele, relógio era uma joia funcional, uma peça de arte que por acaso também dizia que horas são. Essa visão o acompanharia por toda a carreira. Nos anos 1950 e 60, ele começou a trabalhar para marcas suíças, desenhando relógios elegantes, proporcionais, corretos. Mas a revolução ainda estava por vir.
O meio: quando o aço virou luxo.

Nos anos 1970, a relojoaria suíça enfrentava a chamada “crise do quartzo”: relógios eletrônicos, baratos e precisos, principalmente vindos do Japão, ameaçavam todo o modelo tradicional. Era preciso ousar. É nesse momento que Genta dá seus dois golpes de mestre.
Primeiro, para a Audemars Piguet, ele cria o Royal Oak:
• Um relógio esportivo em aço (e não em ouro),
• com caixa octogonal,
• parafusos aparentes no bisel,
• pulseira integrada que parece crescer do próprio relógio.
Na época, foi um choque. Um relógio de aço, caro, com design tão diferente? Muitos acharam uma loucura. Hoje, o Royal Oak é um dos maiores ícones da relojoaria de todos os tempos e praticamente definiu a categoria “relógio esportivo de luxo”.
Pouco depois, para a Patek Philippe, ele cria o Nautilus:
• Caixa inspirada em escotilhas de navio,
• uma forma que não é bem redonda, nem quadrada,
• mostrador com textura horizontal,
• novamente, pulseira integrada em aço.
Mais uma vez, Genta pega o aço – material “comum” e o transforma em objeto de desejo absoluto. É joalheria em versão esportiva, luxo em modo casual. Depois de Royal Oak e Nautilus, nenhuma marca pôde ignorar essa linguagem.
E não para por aí: ao longo da carreira, Genta colaborou com diversas casas importantes (IWC, Omega, Bulgari e outras), sempre deixando traços marcantes – caixas inusitadas, complicações apresentadas de forma diferente, mostradores com muita personalidade. Em um mercado obcecado por tradição, ele ousou ser moderno.
O fim (que não é fim): legado de um gênio discreto.
Mais tarde, Gérald Genta cria sua própria marca, onde leva suas ideias ao extremo: relógios com horas saltantes, minutos retrógrados, peças lúdicas, coloridas, quase irreverentes. Como se, depois de criar os “clássicos sérios” para as grandes casas, ele se desse o direito de brincar com o tempo.
Ele faleceu em 2011, mas seu impacto continua tão vivo quanto os segundeiros que ele desenhou. Hoje:
• Royal Oak e Nautilus são alguns dos relógios mais cobiçados do planeta;
• O conceito de relógio esportivo de luxo em aço domina o mercado;
• Designers e marcas ainda bebem da fonte de suas ideias, muitas vezes sem nem perceber.
O mais curioso é que muita gente conhece os modelos, mas não o homem por trás deles. O mundo fala de Audemars Piguet e Patek Philippe, mas raramente lembra de Gérald Genta. Talvez seja essa a beleza da história: enquanto a maioria das pessoas olha apenas para o logo no mostrador, quem ama verdadeiramente relógios sabe que, por trás de muitos ícones, existe a mesma assinatura invisível.
Gérald Genta não desenhou apenas relógios. Ele desenhou uma nova forma de enxergar o tempo: ousada, elegante, esportiva e eterna. E, cada vez que um Royal Oak, um Nautilus ou qualquer “herdeiro” dessa linguagem aparece no pulso de alguém, é como se o gênio silencioso de Genebra sorrisse, lá do fundo da história, sabendo que o seu tempo ainda não passou.
