MILÃO (ITÁLIA): Atleta ucraniano é desclassificado após se recusar a competir sem capacete em homenagem a mortos na guerra.

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O atleta ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych, de 27 anos, foi desclassificado dos Jogos Olímpicos de Inverno nesta quinta-feira (12) após se recusar a disputar a prova sem o capacete que utilizava em homenagem a atletas mortos na invasão da Rússia à Ucrânia.

Heraskevych vinha treinando na Itália com um capacete que exibia fotos de compatriotas mortos no conflito. Minutos antes do início da competição, ele foi impedido de competir e teve a credencial retirada.

“Fui desclassificado da corrida. Não terei meu momento olímpico”, declarou o atleta. Segundo o Comitê Olímpico Internacional (COI), ele violou a Regra 50.2 da Carta Olímpica, que proíbe manifestações políticas nos campos de competição.

Em resposta à decisão, Heraskevych afirmou: “Eles foram mortos, mas sua voz é tão alta que o COI tem medo deles”. A equipe do atleta informou que pretende recorrer à Corte Arbitral do Esporte.

A presidente do COI, Kirsty Coventry, reuniu-se com o ucraniano minutos antes da prova, em uma tentativa de convencê-lo a utilizar um capacete neutro. O encontro durou cerca de dez minutos, mas não houve acordo.

“Achei importante vir conversar pessoalmente com ele. Ninguém, especialmente eu, discorda da mensagem. É uma mensagem poderosa, de lembrança e memória”, afirmou Coventry. O COI sugeriu alternativas, como o uso de uma faixa preta no braço ou a exibição do capacete antes e depois da corrida.

“Infelizmente, não conseguimos encontrar uma solução. Eu realmente queria vê-lo competir. Trata-se das regras e regulamentos. Precisamos manter um ambiente seguro para todos e, neste caso, isso significa que nenhuma mensagem é permitida”, acrescentou.

O porta-voz do COI, Mark Adams, reforçou que permitir manifestações individuais poderia abrir precedentes. “Se permitirmos essa expressão a um atleta, isso levará ao caos”, disse em coletiva.

O caso reacende debates sobre liberdade de expressão no esporte olímpico. Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu nos Jogos de 1968, na Cidade do México, quando os velocistas norte-americanos Tommie Smith e John Carlos ergueram os punhos cerrados com luvas pretas em protesto contra a injustiça racial nos Estados Unidos. Ambos foram expulsos da competição.

Mais recentemente, nos Jogos de Paris 2024, a atleta afegã de break Manizha Talash, integrante da equipe olímpica de refugiados, foi desclassificada após usar uma capa com o slogan “Mulheres afegãs livres” durante uma pré-qualificação.

O Comitê Olímpico da Ucrânia informou que planejava algum tipo de manifestação, mas não cogita boicotar os Jogos. O ministro da Juventude e Esportes da Ucrânia, Matvii Bidnyi, declarou apoio ao atleta nas redes sociais: “Corrigiremos esse erro por meios legais. Vladyslav, você agiu com dignidade. Essa história certamente continuará. Estamos com você”.

Após a decisão, membros da delegação ucraniana foram vistos chorando e se abraçando na pista.

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