Por: Fabiana Widal
A reprovação escolar, também chamada de retenção, é um tema recorrente no debate educacional brasileiro. Para alguns, trata-se de um recurso pedagógico necessário; para outros, uma prática que precisa ser urgentemente revista. Entre dados, estatísticas e decisões institucionais, há um ponto que nem sempre recebe a devida atenção: a história emocional por trás de cada aluno retido.
Falo desse tema não apenas como professora, mas também como alguém que vivenciou, na própria trajetória escolar, a experiência da retenção por três vezes. Naquele período, eu havia perdido meus pais uma dor profunda, silenciosa e desorganizadora. Ainda assim, a escola seguiu avaliando meu desempenho apenas pelos critérios acadêmicos vigentes, sem considerar o impacto emocional que atravessava minha aprendizagem.
O resultado não foi apenas a repetência. Foi a ruptura de vínculos, a perda do convívio com amigos de sala, o sentimento crescente de incapacidade e a construção de uma autoimagem fragilizada. Não se tratava de falta de potencial intelectual, mas de um luto não visto, não acolhido e não nomeado.
É importante afirmar: a retenção, em si, não é vilã absoluta. Há casos em que a defasagem pedagógica exige intervenções mais estruturadas. No entanto, reduzir o fracasso escolar exclusivamente a conteúdos não assimilados é ignorar que aprender é um processo integral, cognitivo, emocional e social.
Hoje, com mais estudos sobre desenvolvimento infantil, neurociência e saúde emocional, sabemos que fatores como perdas, traumas, insegurança emocional e sofrimento psíquico impactam diretamente a atenção, a memória, a motivação e o desempenho escolar. Ignorar esses aspectos é correr o risco de punir uma dor que não foi compreendida.
Uma escola verdadeiramente comprometida com a aprendizagem precisa se perguntar, antes da reprovação:
O que este aluno está vivendo?
Quais fatores emocionais interferem no seu rendimento?
Que tipo de apoio foi oferecido antes de se decidir pela retenção?
Reavaliar a retenção escolar não significa flexibilizar excessivamente critérios pedagógicos, mas ampliá-los. Significa entender que, por trás de notas baixas, muitas vezes existem histórias invisíveis que não cabem em boletins, mas pesam no desenvolvimento humano.
Talvez o desafio contemporâneo da educação não seja apenas decidir quem avança ou quem fica, mas aprender a olhar o aluno por inteiro. Porque, no fim, ensinar não é apenas transmitir conteúdos é também reconhecer dores, sustentar trajetórias e preservar a dignidade emocional de quem aprende.
